Texto publicado no mês de fevereiro na AREVISTA – Japão

FELIZ(CIDADE)

Realizo palestras constantemente levando minha história para empresários e colaboradores. Numa dessas viagens, transitava por uma estradinha bem pacata mas vistosa com muitos arbustos e características agrícolas, trecho de Erechim ,no Rio Grande do Sul , sul do Brasil . O motivo da viagem era atender a Cooperativa Aurora Alimentos, empresa que comercializa aves e suínos. O dia estava nublado mas não frio, estava inspirado e pensava sobre as temáticas que iria adotar no encontro que aconteceria. Escutava pelo notebook With or Without you do U2, na companhia do motorista que havia me buscado no hotel. Ele era calado, mas depois vi que era tímido, por isso sua mudez.

Olhava aquelas paisagens e tentava puxar conversa perguntando pra ele sobre a vida deles ali na região. O destino era Sarandi, uma cidade com pouco mais de 26 mil habitantes.

Perguntei sobre o dia-a-dia, sobre os hábitos e costumes e aos pouco fui ganhando intimidade e questionei sobre o lazer, que no meu entendimento era nulo. Difícil compreender que alguém tenha lazer em um lugar onde exista pouca gente e ao redor só mato.

Tentava por alguns momentos me imaginar na pele dele vivendo naquele marasmo. Obviamente que no meu inconsciente , me permitia entender tudo o que ele dizia. Com um olhar sorridente , sotaque caipira, me dizia que no pasto era onde ele respirava a vida, e que para refletir e ter contato com Deus, era ali que ele tinha inspiração. Entendi perfeitamente, e imaginei numa analogia, eu surfando. Era igual – pensei.

Disse pra ele: – Sim, consigo entender o que você diz!

Continuei avistando as imagens que se apresentavam durante nosso percurso de carro. A brisa com cheiro de grama exalava. Apontei pro horizonte e indiquei uma fazendinha que avistava a direita pelo vidro do passageiro. Questionei sobre os agropecuaristas.

– Onde eles moram ?

Ele me respondeu: Aí mesmo! Tá vendo aquela casinha, deve ser ali!

De repente, saímos do asfalto e entramos numa estrada de paralelepípedo…durante quase 20 km (trepidando)…perguntei:

Nossa, agora vai até lá, assim ?

Não , relaxa, daqui a pouco, fica melhor, vamos entrar no terrão, aí você vai curtir a natureza. Aqui é tudo de `bão`!

Olhei espantado com a resposta do motorista, e consegui após alguns segundos entender sua felicidade em me comunicar sobre a melhor estrada, a de terra.

A minha sintonia com o cenário que se apresentava me deixava totalmente ciente de que o motorista que conheci naquela manhã, era uma pessoa muito feliz e gostava da vida que levava. Fiquei feliz por ele, e refleti comigo…

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Hábitos, costumes e formas de pensar… cada um ao seu estilo, sua maneira…

Respeito, e acredito que cada um tem sua história para contar.

Nem sempre o azul , minha cor predileta é a que todo mundo gosta. Como nem todo asfalto é a melhor estrada para quem está acostumado com o campo e gosta da natureza como um todo.

Fiquei imaginando, como que uma pessoa conseguia levar uma vida tão sossegada. Por minutos pensei e repensei sobre a questão do estado de espírito. Talvez eu não conseguisse, mas relutei e comecei a imaginar esse sujeito numa cidade como SP. Talvez ele também viesse a ter os mesmos questionamentos sobre a minha pessoa e o meu estilo de vida.

A tranqüilidade, a paz e o sossego são condições que o ser humano é passivo de adaptação. É tudo uma condição de viver buscando sintonia com as melhores coisas que se podem fazer dentro da realidade e possibilidade.

Plantar uma árvore, tirar leite da vaca ou até mesmo adubar a terra é como dirigir no transito de SP, ir ao banco e freqüentar reuniões. Cada um ao seu modo e estilo, vai levando sua vida da maneira que melhor convém e agrada.

A reflexão que tive é que não existe melhor lugar. Existe maior realização dentro daquilo que você acredita ser parte da sua vida.

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho. (Mahatma Gandhi)

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Vocês, brasileiros, residentes no Japão, que deram a volta no mundo buscando uma vida melhor, para estarem perto de seus familiares; ou por melhores condições de trabalho ou até mesmo, em busca de uma aventura, sintam-se preenchidos pelo sentimento expresso nesse texto. Tanto aqui (Brasil), de onde escrevo, quanto aí (Japão), onde vocês estão, a vida pode ser feliz, tudo é uma questão de ter entendimento que o melhor pra gente é aquilo que nos faz bem, que nos deixa feliz, que nos preenche e nos dá paz de espírito.

Tem muita gente, que saí pelo mundo instatisfeito pelas decepções que encontra pela frente, outros se frustram com as expectativas criadas quando saem se aventurando em busca da felicidade. Sou novo, farei 28 anos, no dia 06 de Fevereiro, mas aprendi uma preciosa lição e gostaria de retransmitir a todos através dessa coluna que escrevo mensalmente a vocês.

Felicidade não se busca, está dentro de nós.

Através de pequenas atitudes podemos viver grandes resultados, entusiasmando outras pessoas e vivendo a vida com desejo de que amanhã será melhor do que hoje.

O trabalho honesto nos traz caráter para que consigamos entrar em mundos novos sem perder nossa essência. Devemos sempre erguer a cabeça, agradecer a Deus e ir em frente.

E , quando a depressão bater ou a angústia pairar por conta da ansiedade de pensar que estando em outro lugar seria mais feliz, pense e reflita que Shangri-lá (país imaginário) é aquele lugar dentro da sua mente, que você pode entrar e sair sem pedir permissão.

Fonte: IPC, AREVISTA – VITRINE